28/05/2026

Os clubes de futebol com maior receita – e os com cartão vermelho

Por: Silvia Rosa
Fonte: Valor Econômico
Os clubes de futebol da série A do Campeonato Brasileiro tiveram uma receita
32% maior em 2025, somando R$ 14 bilhões. Mas a dívida da elite do futebol
também saltou 15% e virou R$ 17 bilhões, o que levou alguns clubes como
Botafogo e Vasco a entrarem com pedido de recuperação judicial.
Esses são alguns dados da última edição do Relatório Convocados, divulgado
nesta quinta-feira pela Convocados Gestão e Futebol e pela Outfield Inc., com
patrocínio da Galapagos Capital. “O ano foi de sinais díspares, mas que refletem
um processo de evolução dos clubes de futebol no Brasil”, diz César Grafietti,
economista responsável pelo documento.
Na liderança dos times com maior receita, está o Flamengo, com faturamento de
R$ 1,973 bilhão, ou 47% a mais do que em 2024. Só Corinthians e Grêmio tiveram
queda na receita, de 15% (para R$ 987 milhões) e 0,4% (para R$ 509 milhões),
respectivamente. Veja tabela das maiores receitas e a pesquisa completa no fim da
reportagem.
Entre os dez primeiros em faturamento, o Botafogo teve o maior crescimento no
período: 92%, totalizando R$ 1,370 bilhão. Contudo, o aumento de despesas e o
salto de 53% do endividamento fez com que o clube encerrasse ano passado com
prejuízo de R$ 287 milhões.
O Flamengo também foi o clube com maior lucro líquido: R$ 336 milhões,
seguido por Palmeiras (R$ 292 milhões). Já o Atlético Mineiro liderou os
resultados negativos, com R$ 310 milhões.
Em geral, o crescimento das receitas dos times da série A foi impulsionado pela
venda de jogadores, que somou R$ 3,9 bilhões, e aumento das receitas
comerciais, que totalizaram R$ 3,1 bilhão, turbinadas por R$ 1 bilhão das bets e
pela Copa Mundial de Clubes.
“Isso mostra que o Brasil é um grande formador de atletas, mas o crescimento de
receita baseado na venda de jogadores não é tão saudável”, diz o economista da
Convocados.
O time que mais ganhou mais dinheiro com venda de jogadores nos últimos três
anos foi o Palmeiras, que embolsou R$ 1,4 bilhão no período, incluindo a
transferência do Estevão ao Chelsea, a maior transação da história do futebol, por
61,5 milhões de euros (R$ 358 milhões).
Em geral, times que investem mais na base e estão com balanços mais saudáveis,
como Palmeiras e Flamengo, conseguem negociar melhor os jogadores, diz Luiz
Juliano, sócio-operador da vertical de estratégias da Outfield.
Apesar do aumento das receitas, a gestão financeira ainda precisa melhorar,
principalmente no controle de gastos com salários e contratações, que subiram,
e do endividamento financeiro, que acabou pesando nos resultados dos clubes.
Os 20 clubes da série A somados tiveram um Ebitda total de R$ 3,4 bilhões, que,
sem as receitas extraordinárias de vendas, passaria para R$ 500 milhões
negativos. “Em 2026, a tendência é de maior equilíbrio financeiro”, aposta
Grafietti.
A chegada de 28 novas sociedades anônimas de futebol (SAFs), totalizando agora
130 clubes, ainda não se traduziu em ganho de eficiência para todos. Das sete
SAFs ou clube-empresa da série A como o Bragantino, cinco estão ou entraram
em recuperação judicial: Vasco, Botafogo, Cruzeiro, Coritiba e Chapecoense.
“A recuperação judicial tem sido um instrumento que tem funcionado no futebol
para soerguimento dos times, com alguns deles já tendo saído desse processo
como o Coritiba e a Chapecoense”, comenta o economista.
Entre os mais endividados estão o Atlético Mineiro, que encerrou 2025 com uma
dívida de R$ 2,6 bilhões, e Botafogo e Corinthians, ambos pendurados em R$ 2,5
bilhões. O Galo aprovou, neste ano, um aporte de R$ 530 milhões suportado pela
família Menin, que aumentou sua participação na SAF enquanto o ex-banqueiro
Daniel Vorcaro foi diluído.
Os recursos serão usados para pagar dívida bancária, e o clube ainda enfrenta
restrição de liquidez para fazer frente ao aumento de investimentos para manter
a competitividade.
A entrada em vigor em 2027 do Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF),
conhecido como fair play financeiro do futebol, deve levar a um nível de equilíbrio
as finanças dos clubes e ajudar a atrair investidores, afirma Grafietti.
O mecanismo incluirá o monitoramento e controle das finanças dos clubes
através da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol.
Aplicando esses critérios hoje, nove clubes da série A estariam reprovados.
A boa gestão financeira de alguns times se traduz em maior potencial de
valuation. Considerando a capacidade de crescer e transformar receita em caixa
e valor via ativos, o Flamengo e o Palmeiras são hoje os mais valiosos do país
com valuations estimados acima de R$ 2 bilhões. O Real Madrid é o time mais
valioso do mundo, com valor estimado em 7,7 bilhões de euros (R$ 45 bilhões)
Além da boa gestão financeira, é importante ter uma liga forte de futebol para
atrair investidores internacionais. Hoje, os clubes que disputam o Brasileirão
fazem parte de duas ligas: a Libra, que totalizou uma receita de R$ 1,3 bilhão em
2025 e reúne hoje os maiores times como São Paulo, Palmeiras e Flamengo, e a
União Forte que somou R$ 1,7 bilhões em faturamento e mais clubes.
Há uma discussão para uma unificação das ligas, o que fortaleceria o futebol
brasileiro como indústria. “A unificação das ligas é uma necessidade”, diz Grafietti.